O Dom de Estar Vivo

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Volume II

O Dom de Estar Vivo - 1967

(…) não é pequena satisfação encontrar alguém que respira com uma naturalidade que chega a parecer insólita. Essa é a grande qualidade que sobressai em O Dom de Estar Vivo: a fluência, a espontaneidade, a invenção vocabular fácil. (...) Alice Sampaio é um romancista da indignação e, como todos bem sabemos, a indignação é um sentimento vivo. Só isto bastaria para lhe darmos o nosso aplauso. É também uma escritora que não vira a cara a certos problemas que têm muito que ver com a sua condição de mulher neste momento da História, neste ponto crucial em que se está preparando uma diferente confrontação entre os dois sexos. (...)

José Saramago, Seara Nova, N.º 1468, fevereiro de 1968

 

Excerto:

Capítulo I

Sorrisos de Verão

 

                                        Where is the summer, the unimaginable Zero Summer?

                                                                                                                           T. S. Eliot


Guardava da aldeia a nebulosa imagem de um feixe de paralelas, estranguladas a meio, tensas como cordas de uma guitarra. Confrontando agora imagem-objecto concluía que não: a aldeia tinha sim a forma de um corpo humano, deitado de costas, as mãos debaixo da cabeça a servir de travesseiro, pernas levantadas: assexuado, monstruoso (quatro patas), semiadormecido.  Atardado.

 

Àquela hora da tarde aborrecia-me quase agradavelmente. Considerava o povoado do alto do casario da tia Lau (este ocupando grande parte de uma das patas centrais), construção rectangular pesadona e feia sem outro arrebique além do telhado preto, pontudo, à laia de pagode chinês e que apesar dessa sólida desgraciosidade, ou por causa dela, se impunha de longe, sobressaía com vantagem do palacete dos Azevedos em estilo-novo-rico-chegado-das-Américas e da vivenda das Senhoras Sampaias, toda de granito e arquitetura monástica talhada em largos blocos escurecidos pelo tempo, onde alastravam musgos e líquenes e nos interstícios cresciam talófitas e outras variedades vegetais: pintura passado-romântica que melhor camuflava a abundância e sobriedade transmitidas de geração em geração. Do seu mirante podia abarcar a aldeia com o seu remate indispensável, a Toda-Poderosa-Igreja, Casa-do-Senhor Padre, passais, cemitério e adro. (...)