A Rua da Ronda (Tarde Branca do Mês de Janeiro)

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A Rua da Ronda  (Tarde Branca do Mês de Janeiro)  - 1969

Contracapa:

Uma aldeia da Beira Alta – de antes da emigração – mergulhada na fome e no frio. A “rua da ronda” será como uma espécie de via-sacra do povo, a rua da procissão do Senhor da Agonia que descreve a curva fechada de um desespero sem limites. Como ultrapassá-lo? Como romper o círculo? “A Rua da Ronda” é a primeira peça de uma trilogia “Para um Teatro dos pobres”: a aldeia na fome e no frio, a aldeia durante a emigração (rompeu-se a cadeia?), e a aldeia depois, muito depois…

Epígrafe:

yo soy Merlín, aquel que las historias

dicen que tuve por mi padre al diablo

 

Miguel de Cervantes, Don Quijote de la Mancha

Excerto:

 

Quadro I
 

Na brancura desértica de um nevão, uma casa de pedra e a mulher como uma sombra de nevoeiro.
 
Eufrásia :
Velhacos. Bácoros. Bacocos. A chamarem-me a mim, a mim, bruxa. De feitiços. A mim que os tenho curado de maleitas, maus olhados. Ah dianhos. Bocas abertas. Ui rai's os parta. Tempos hão-de vir malvados humanais criaturas e vereis ah vereis todos de abalada. Os novos pois. Os viçosos. Aahhhh. Pra guerras. Prá estranja. Brasis e mais brasis. Dinheirama a rodos. Oivi-o em sonhos. E mais coisas e aloisas. Dianhos. Olha a falta. Fomes. Sequidão de velhos relhos. Dianhos. Vão-se vão que rufões voltarão. Como oitros. Os que voltarem. Corja. SSSSSSS. Rai de frio. Acabo o conto tonto. Que quem viver verá. E contará. SSSSSSSSS. Ijasus. Fora canalha. Fora. Fora. SSSSSSSSSSS. Olha já lá tardava. Mirai-me aquela abutarda. O Miguel Almocreve. Vou-me. Vou-me. Há-de querer chá. Lumbago queixa-se. E eu a saber. Sempre com o siso na panela do caldo. Pois espera que já o comes. Dó de mim. Ai dó de mim. Ai não que cruzes e rezas dão na fraqueza. Mê caldinho. Mê rico caldinho de minha alma. Nos escusamos Ufrásia. SSSSSSSS.

(...)